Rocinha quer saneamento e não teleférico

– Rogério Daflon do Canal Ibase

Movimentos sociais da Favela da Rocinha estão discutindo a instalação de um teleférico na comunidade, como já anunciado pelo governo do Estado do Rio de Janeiro. Rocinha sem Fronteiras, Rocinha SOS Saneamento e o Fórum Cultural da comunidade vêm protestando contra o equipamento, já que consideram o saneamento básico a prioridade no momento. No próximo dia 22 de junho, os movimentos vão receber uma médico sanitarista para debater a importância de se equacionar o problema da falta de esgotamento sanitário. A Rocinha tem grande incidência de doenças infectocontagiosas.
Arquiteto responsável pelo primeiro plano urbanístico da Rocinha, Luiz Carlos Toledo diz que a solução de transporte ideal para a favela são planos inclinados. Com um custo muitíssimo menor, os planos inclinados, ao contrário do teleférico, não esvaziam o comércio local.

O problema de saneamento na Rocinha é grave. Dos 23399 domicílios visitados pelo Censo 2010, 14,5%, ou seja, 3409, não têm sequer banheiro. No Complexo do Alemão, onde o teleférico foi instalado desde 2011, não há qualquer anúncio do governo de obras de saneamento básico. No Morro da Providência, onde o teleférico será inaugurado daqui a alguns dias, também não há programação para obras de saneamento.
Abaixo, a carta dos movimentos sociais.

“A Rocinha desde sua existência enfrenta problemas como queda de encostas, enchentes na parte baixa e, por consequência, bairros vizinhos sofrem com a falta de canalização correta do esgoto e drenagem pluvial decorrente do abandono pelo poder público, que até início dos anos oitenta consentia apenas a entrada da repressão através da polícia.
Em determinado período de sua existência, moradores de favelas viviam o fantasma da remoção e, para afastar tal ameaça, a Rocinha acreditava que as ações de mutirões de limpeza de valas eram o remédio, conforme consta em reportagem da Revista Veja publicada em 09/08/78, pag. 70, que no presente nos remete a perceber que continua na pauta de reivindicações além de outros serviços prestados parcialmente ou não.
Em Artigo Editorial publicado no Jornal Folha de São Paulo, em 21/11/2011, denominado “Urbanismo Pacificador, diz que: “para integrar favelas às cidades, é preciso que urbanização, saneamento básico e prestação de serviços sejam levados a sério”. E que o desafio da pacificação é a remoção dos obstáculos urbanísticos e arquitetônicos com abertura de ruas para acesso aos serviços públicos e redução do índice da tuberculose que corresponde a sete vezes a média nacional (300 casos por 100 mil habitantes). Para isso há um projeto de plano diretor, escolhido por concurso público promovido pelo governo do Estado, em 2005, que prevê intervenções para facilitar deslocamento de pedestres e serviços na favela.

Tal editorial diz ainda que se deva pensar em empregar recursos na melhoria da qualidade de vida dos moradores, em vez de obras grandiosas, referindo-se ao teleférico, que o governo do estado pensar em erguer na Rocinha.

O citado editorial nos faz refletir sobre o que a Rocinha quer e o que a Rocinha precisa, visto que em visita ao teleférico do “Alemão”, percebeu-se que acesso para deficientes físicos moradores é difícil, transporte de bens adquiridos de maior porte não é possível, transporte de resíduos em descarte também não é possível, o comércio não se beneficiar porque o transporte é feito pelo ar; daí a pergunta para quem e para que serve o teleférico?

Em artigo publicado no mesmo jornal e na mesma data, denominado “O teleférico e a tal vontade política”, o arquiteto Luiz Carlos Toledo faz referência a proposta de implantação do teleférico na Rocinha com a seguinte expressão: “Só mesmo a vontade política, descolada da realidade das nossas favelas, poderia impor a construção de teleférico na Rocinha como vem sendo dito”, e diz que isto coloca de lado as propostas do plano diretor sócio espacial da Rocinha, aprovado pelo próprio governo do estado, e que tal plano prevê melhorias nas condições de mobilidade na favela, tendo como objetivo eliminar os gargalos que dificultam o fluxo viário e o de pedestres, que sofre com barreiras físicas de toda ordem e com a topografia acidentada da Rocinha.
Para seguir em frente não se deve esquecer que o PAC 1 ainda não foi concluído, há obras previstas não reiniciadas, nesse contexto vem a pergunta, quando reiniciam? Quando terminam?”