Um olhar crítico sobre teleféricos de especialistas e aliados, com o processo de planejamento do PAC Rocinha em destaque

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Este artigo foi escrito em colaboração com Rocinha sem Fronteiras, S.O.S., Rocinha Saneamento, Salve a Rocinha e Mundo Real por Catherine Osborn.

Mais de uma centena de cidadãos se reuniram no Clube de Engenharia no dia 19 de julho à tarde em um fórum de discussão sobre teleféricos e mobilidade urbana, especialmente no contexto de urbanizações nas favelas que ocorrem atualmente no Rio de Janeiro. O foco foi em torno do processo de planejamento para a segunda fase do programa de infraestrutura nacional PAC, previsto para começar a construção na Rocinha este ano e já apresentado à comunidade. Planejadores do PAC querem coroar a próxima fase de obras na Rocinha com um teleférico, mas a maioria dos participantes do fórum, que incluiu moradores da Rocinha, engenheiros e moradores de outras favelas que estudaram intervenções de trânsito dizerem “não tão rápido.”

Um dos grandes pontos fortes da primeira fase de melhorias do PAC na Rocinha foi o processo participativo através do qual ele foi planejado, com muitas reuniões com os moradores com antecedência, pedindo-lhes suas preferências. Tal como aconteceu com o PAC I na Rocinha, os planos para o PAC II começam com mapas detalhados da área apresentando vias de transporte e elevação. Esses mapas foram apresentados por um representante da EMOP no início do evento de sexta-feira. O representante, em seguida, passou a traçar o caminho futuro do teleférico da Rocinha, e ouvi comentários resistentes da parte de trás da sala. Um morador apontou que as pessoas da Rocinha não foram consultados se eles quisessem o teleférico ou se a maioria deles queriam o dinheiro público gastado em outra coisa. “Saneamento sim, teleférico não” foi a pauta de uma manifestação pacífica de mais de mil pessoas que uniu moradores de Rocinha e Vidigal em 25 de junho, e muitos participantes do evento de sexta-feira questionou a ideia de priorizar os gastos públicos para um teleférico quando Rocinha tinha questões graves de saúde pública que investimentos em saneamento poderiam aliviar em grande medida. PAC I arquiteto Luiz Carlos Toledo disse que, falando no tema da saúde, pessoas em cadeiras de rodas como ele mesmo não seriam capaz de viajar através de teleférico por causa do seu sistema de embarque rápido.

Engenheiro Raul Cahet apresentou uma investigação financeira que ele fez sobre o único teleférico concluída numa favela do Rio, no Complexo do Alemão. Dados completos sobre o projeto não são abertos ao público, mas simplesmente usando a internet, Cahet foi capaz de reunir alguns orçamentos e chegar a concluir que menos de dez por cento dos moradores de Complexo do Alemão usam o teleférico, aproximadamente o mesmo número de moradores que tiveram que ser removidos para que o teleférico seja construído.

Alan Brum Pinheiro da ONG Raizes em Movimento do Complexo de Alemão falou sobre a experiência de fazer trabalho social na comunidade antes e depois da instalação do teleférico. Ele leu parte dum estudo realizado pelo IPEA que indicou o abandono de outros serviços públicos na área em favor do trabalho de manutenção no teleférico. [Esqueci o nome do senhor que falou – ele foi um substituto para Roberto Marinho] da Providência, onde há atualmente um teleférico em construção, falou que sua chegada na comunidade até então causou mais mudanças do que qualquer outra coisa, e que os moradores não foram consultados sobre onde ele seria instalado.

Morador de Santa Marta e diretor do iBase, Itamar Silva, falou sobre a experiência de ter um tipo diferente de intervenção de mobilidade numa favela: um plano inclinado, em que um carro de passeio se move para cima em uma trilha. “De todas as diferentes intervenções estatais em Santa Marta, eu posso dizer que o plano inclinado foi um dos melhores”, disse ele, observando que o seu espaço extra permite que os residentes podem transportar compras, bicicletas e outros equipamentos junto com eles. Um plano inclinado não era uma opção apresentada aos moradores da Rocinha em fase de planejamento do PAC 2, mas muitos participantes do fórum manifestaram interesse nele, especialmente porque custaria muito menos do que instalar um teleférico e seria menos de uma atração turística. Silva também enfatizou a importância de dar a cada indivíduo residente pleno acesso aos dados sobre projetos como esses, para que pudessem formar suas próprias opiniões.

José Martins de Rocinha Sem Fronteiras reiterou a importância de uma voz crítica e ativa dos moradores da Rocinha, especialmente quando eles poderiam ver resultados de obras de trânsito instaladas em outras favelas da cidade. Ele destacou algumas contradições nas políticas de planejamento da cidade para Rocinha, como o fato de que no passado, a cidade mandou que famílias mudassem para Laboriaux, e mas depois, disse que era uma área de risco. Martins descreveu dois planos diretores municipais anteriores que incluíam Rocinha, e observou que nenhum deles listou um teleférico como uma prioridade.

Após quatro horas de depoimentos de duas mesas organizadas, mais de uma hora e meia de debate seguiu. Uma moradora da Rocinha disse que a comunidade deve estar feliz que estava recebendo investimento e aceitar quaisquer projetos são propostos, mas outro respondeu que o teleférico custará 700 milhões de Reais, e os moradores foram bastante organizados de determinar um fim mais eficaz para este dinheiro.

A moderadora do evento Uiara Martins disse que o evento foi organizado porque o Clube de Engenharia tinha olhado para o processo PAC II e para eles, parecia que planejamento abragente não estava ocorrendo. José Ricardo Duarte de Laboriaux, em seus comentários finais, agradeceu o Clube de Engenharia para fornecer o espaço para debate, e ressaltou a importância da continuidade do debate com a presença de profissionais tecnicamente qualificados que poderiam dar comentário imparcial ao longo do caminho.