O teleférico e a tal da vontade política – LUIZ CARLOS TOLEDO

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Só mesmo a vontade política, descolada da realidade das nossas favelas, poderia impor a construção de teleférico na Rocinha, como vem sendo dito

teleférico na rocinha
Plano do teleférico na Rocinha

Em minha longa carreira de arquiteto, tive o desprazer de deparar, vez por outra, com a tal da “vontade política”, barreira difícil que, cedo ou tarde, teremos de enfrentar.

Falando a meus alunos sobre o plano de Haussmann para Paris, destaco, além da consistência e da beleza das intervenções, seu processo de elaboração que reuniu, pela primeira vez na Europa, equipe multidisciplinar para elaborar e implantar o plano. A reforma urbana de Paris seguiu fielmente as propostas da equipe, e não a vontade política de governantes absolutistas.

Estupefato, li, nos últimos dias, reportagens sobre as intervenções que serão feitas na Rocinha com recursos do PAC 2 e do governo estadual, e percebi que o Rio de Janeiro vive sob o jugo do absolutismo, como no reinado de Luís 16, mas com uma pequena diferença: nossos governantes não correm risco de terminar na guilhotina.

Só mesmo a vontade política, descolada da realidade de nossas favelas, poderia impor a construção de um teleférico na Rocinha; só ela poderia explicar o inexplicável, isto é, colocar de lado as propostas do Plano Diretor Socioespacial da Rocinha, aprovado pelas mesmas instituições que agora o desconsideram.
As medidas do plano para melhorar as condições de mobilidade na favela consideraram tanto a futura implantação da estação São Conrado do metrô como as estratégias adotadas pela população para se deslocar dentro da comunidade.

Têm com objetivo eliminar os gargalos que dificultam o fluxo viário e o de pedestres, que sofre com barreiras físicas de toda a ordem e com a topografia acidentada da Rocinha.

As propostas compreendem a adequação do sistema viário existente, a implantação de um binário em pequeno trecho da Estrada da Gávea, a eliminação das barreiras físicas e a implantação de cinco planos inclinados para vencer os desníveis mais severos.

São medidas simples, que provocarão uma revolução na favela, pois serão acompanhadas pela implantação das redes de infraestrutura e de escadas drenantes. E muito mais econômicas do que a implantação de um sistema de teleféricos com oito estações, conforme se anunciou.

Considero uma imprudência adotar o teleférico como solução sem antes avaliar seu funcionamento no Complexo do Alemão, o que só poderá ser feito quando estiver funcionando a plena carga. Além disso, equipamentos e tecnologia do teleférico são importados, o que torna o governo refém de uma só firma.
A construção e a manutenção das estações exigirão ruas apropriadas ao tráfego de caminhões, além de dezenas de vias de serviço para a colocação de postes. O pior é que essas obras serão feitas à custa de centenas de remoções de moradias!

A ligação direta à estação do metrô, principal argumento para a implantação do teleférico, prejudicará o comércio existente na Rocinha ao tirar os consumidores das ruas.

Assim, me parece que, em vez de gastar recursos púbicos com o teleférico, o melhor seria usá-los nas ações do Plano Diretor, amplamente discutidas com a comunidade.

Para quem ainda não sabe, as prioridades na Rocinha são saneamento, educação, saúde e moradia digna, aliás, o mesmo que o Brasil precisa, segundo o IBGE.

LUIZ CARLOS TOLEDO, arquiteto, é doutor em teoria de arquitetura pela UFRJ e professor adjunto da Faculdade de Engenharia da Uerj. Chefiou a equipe que elaborou o Plano Diretor Socioespacial da Rocinha (2007-2009).